Resenha
O Imperio da Cortesã "O Império da Cortesã" desvenda
as diversas facetas
de Alencar. O jornalista, crítico literário, cronista teatrólogo, romancista, advogado, deputado e ministro da Justiça entram
em cena histórica misturando as personagens
do romance com os da vida política brasileira. Hoje, a ficção de Alencar pode parecer ingênua mas, no século passado, agitou os meios políticos e culturais, despertando a volúpia dos censores. Seus críticos foram severos discutindo (como Nabuco) as questões centrais propostas por sua obra.
Alencar opta por participar ativamente da vida política defendendo com firmeza seu projeto. Dele faz parte a elaboração de
uma obra literária que lhe permitiu consolidar e sobreviver ao seu momento histórico. Neste sentido preocupou-se em explicitar o eixo central de seu trabalho: a criação do romance nacional.
Pode parecer fácil analisar Alencar e enquadrá-lo dentro do pensamento conservador. Valéria de Marco evita este caminho para nos mostrar um "outro" Alencar capaz de aceitar a "imposição de idéias e modelos como um dado real e incontestável da realidade cultural do Império". Como político, utiliza-se da escrita para definir o lugar da produção artística, da realidade nacional e da tradição literária.
A clareza de seu projeto de vida foi algumas vezes ofuscada pelos seus personagens, capazes de ir além aproveitando-se do cansaço didático-pedagógico do narrador. Este deslize favoreceu o romance. Era difícil visitar as cortesãs de além-mar (em leituras evidentemente) e abandonar de vez os modelos sensualizados pela tradição européia. Em meio às tramas criadas pela ficção muitas palavras escaparam nos diálogos, permitindo que emergisse na brecha da obrigação política a força e a beleza da narração.
O livro ganha sabor quando Valéria passa a descrever o perfil da cortesã: "Carolina, uma jovem personagem que
se deixa seduzir pelo luxo e troca a vida segura e o amor casto e tranqüilo por uma aventura amorosa e pela prostituição. Sua degradação culmina ao encontrar o pai, que bêbado tenta seduzi-la. O incesto não se consuma e Carolina, arrependida e ajudada pelos amigos, entra em processo de expiação, assumindo a filha que tivera com seu sedutor e resignando-se a um casamento branco com Luís – seu grande amor" ("As Asas de um Anjo").
Sua "ladainha moralizante", retomada em "Lucíola", deixa transparecer na expressão cênica das personagens a riqueza de sua escrita capaz de trazer para o leitor uma reflexão sobre as formas de narrar as paixões. Elas ultrapassam de longe uma simples história de amor nos moldes da "Dama das Camélias".
Valéria escapa também da cenografia indígena, tão discutida, consciente de que Alencar procurava combinar "uma especificidade nacional à modernidade contemporânea e internacional da literatura romântica". Ao criar seus personagens Alencar permitiu que eles escorregassem, construindo um romance que "teoriza sobre a linguagem". Uma obra reveladora do processo de elaboração das paixões, loucuras, desejos. Uma obra capaz de expiar todo o mundo prostituído que ele tinha dentro de si.
Više kritika o O IMPÉRIO DA CORTESÃ